3 de jun de 2010

Texto de Jorge Eiró para minha primeira individual, 2003, Galeria Graça Landeira, Belém -PA
























A Carga-Pesada Histórica:

Quando mencionamos o vasto legado de referências ao trabalho de Marcone Moreira, não se trata de multá-lo por excesso de carga, mesmo porque o permitido contrabando de citações é, by the way, maneirismo autorizado da contemporaneidade. Diga-se, de passagem, que em tal contravenção sempre embarca um certo charme gangster, em especial quando o frete destina-se ao semi-árido artístico do nosso faroeste caboclo. Mas perdura um débito a descoberto com a já considerada tradição moderna que convém aqui ilustrar, não a título moral (sic!) de saldar dívidas estéticas, nem, muito menos, de exercer patrulhamentos rodoviário-didáticos no Tráfego de Marcone. Como remissão, trata-se do bom devedor pós-moderno reconhecer “devo, não nego, e pago quando quiser” e com base na boa arte-educação no trânsito, sinalizar suas estradas, dar pistas (ou pintas?) de seus pontos de partida e situar seu locus no maravilhoso mundo mix da arte contemporânea. Para Marcone, de Marabá, cidade ao sul do Pará, por onde passa a Transamazônica gerando um entroncamento mercantil de produtos e informações, a direção do seu olhar não poderia ser diferente. Afinal, as apropriações indébitas nem sempre levam as carrocerias da ParanáPará ao Pontal do Paranapanema. Marabaixo maracima, o novo bom-selvagem Marcone emergiu boiando nas tábuas da salvação, entre tantos dilúvios do Tocantins/Itacaiunas. Salvou-se da atávica entropia equatorial das representações acadêmicas do pictorescco amazônico ao vislumbrar as possibilidades da high-way Duchamp e aí cantarolou baixinho pra si mesmo o épico do Manduka “Quem me levará sou eu”. Então, like a rolling stone, meteu o pé na estrada e ao longo do percurso seu trabalho foi naturalmente incorporando os múltiplos signos da trajetória estética moderna. Para acompanha-lo nessa viagem sugiro o seguinte roteiro: A partir do intenso fluxo de valores e conceitos garantido pela liberdade de ir e vir na via duchampiana, passa-se obrigatoriamente pelas auto-estradas suprematistas e neoplasticistas de Malevitch e Mondrian, para citar apenas alguns, pois, se não, precisaríamos de um guia onomástico 4 Rodas da História da Arte para mapear tantos cartões-postais da iconografia moderna. Portanto, segue em frente, vai direto nesse rigoroso traçado geométrico evolucionista que desemboca na Belém-Brasília do racionalismo construtivista brasileiro. Aí, entre concretos e neoconcretos, desviando um pouco daquela monótona linha reta de estrada americana, a juventude transviada faz uma contramão no trajeto racionalista e passeia pelas sinuosas curvas do pop brasuca, derrapando perigosamente nas pistas mal conservadas das BR-2003. Tudo só pra garantir emoção na viagem, claro, afinal de contas ninguém é de ferro, só o Amílcar de Castro, e, depois da primeira placa (obra?) enferrujada, faz-se um pit-stop num boteco de beira de estrada pra tomar uma lendo o Manifesto Neoconcreto: “É porque a obra de arte não se limita a ocupar um lugar no espaço objetivo – mas o transcende ao fundar nele uma significação nova – que as noções objetivas de tempo, espaço, forma, estrutura, cor, etc., não são suficientes para compreender a obra de arte, para dar conta de sua “realidade”. Bingo! Vamos comer OiticiCaetano? Não sem antes soltar a voz na estrada e fazer a travessia por uma Minas de referências. Já cruzamos a estrada-de-ferro do Amílcar, mas tem ainda Manfredo de Souzaneto e, principalmente, o circuito neo-barroco de Marcos Coelho Benjamin, passagem obrigatória dos carros-de-Beuys e pau-pra-toda-obra daqueles artífices que manipulam sofisticadas artesanias. São tantas as verdades, diria o Leonilson (outro que deixou inumeráveis órfãos bordando seus diários íntimos à beira do caminho). Mas, depois da panamérica utópica do sul maravilha, o filho pródigo sempre pega o Ita[pemirim] de volta ao velho norte, revisitando a gambiarra que deu certo na Estrada Nova do Emmanuel Nassar e ir a lona nas arapucas da Cidade Velha do Emanuel Franco. São tantas as estradas, Marcone, e muita areia pra um caminhãozinho tão novo... É pau, é pedra, mas é só o começo do caminho.

Jorge Eiró

junho/julho 2003